História e Tecnologia:
do código Morse aos LLMs


Aula 2
Prof. Eric Brasil

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

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O que é tecnologia?

Os chimpanzés que usam ferramentas para tarefas complexas transmitem essas habilidades

S. Musgrave, E. Lonsdorf, D. Morgan, M. Prestipino, L. Bernstein-Kurtycz, R. Mundry, & C. Sanz, Teaching varies with task complexity in wild chimpanzees, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 117 (2) 969-976, DOI: 10.1073/pnas.1907476116 (2020).

Macacos de Minas Gerais atingem estágio de evolução da pedra lascada

Mas o que é tecnologia?

BORGMANN, A. Technology as a Cultural Force for Alena and Griffin. The Canadian Journal of Sociology / Cahiers canadiens de sociologie, v. 31, n. 3, p. 351–360, 2006.

Mas o que é tecnologia? Em seu sentido estrito, é um conjunto de maquinarias e procedimentos. Tome seu exemplo mais recente? A tecnologia da informação. É hardware e software, concebido de maneira ampla. Do lado do hardware, há chips, discos, telas, teclados e cabos de fibra óptica. Tudo isso se estende para as máquinas de produção e mais para as usinas geradoras de energia e minas de silicato.

Mas o que é tecnologia?

BORGMANN, A. Technology as a Cultural Force for Alena and Griffin. The Canadian Journal of Sociology / Cahiers canadiens de sociologie, v. 31, n. 3, p. 351–360, 2006.

O software é uma linha de código e se estende de um lado para os procedimentos de designers e programadores e, do outro lado, para os procedimentos que você segue para compor e enviar e-mail, checar o New York Times na Web ou projetar um página da web. Podemos chamar isso do sentido da tecnologia para os engenheiros.

Mas o que é tecnologia?

BORGMANN, A. Technology as a Cultural Force for Alena and Griffin. The Canadian Journal of Sociology / Cahiers canadiens de sociologie, v. 31, n. 3, p. 351–360, 2006.

O que interessa aos teóricos da sociedade é o efeito que esses mecanismos e procedimentos tiveram no nosso modo de vida. Os teóricos sociais estão interessados na tecnologia como uma força cultural. A tecnologia, nesse sentido, é amplamente utilizada na filosofia, nas ciências sociais e na mídia para capturar o que é distintivo da cultura contemporânea. (352-353)

É possível definir?

VERASZTO, E. V.; SILVA, D. DA; MIRANDA, N. A.; SIMON, F. O. Tecnologia: buscando uma definição para o conceito. PRISMA.COM, v. 0, n. 8, p. 19–46, 5 abr. 2009.

Na técnica, a questão principal é do como transformar, como modificar. […] A palavra tecnologia provém de uma junção do termo tecno, do grego techné, que é saber fazer, e logia, do grego logus, razão. Portanto, tecnologia significa a razão do saber fazer (RODRIGUES, 2001). Em outras palavras o estudo da técnica. O estudo da própria atividade do modificar, do transformar, do agir (VERASZTO, 2004; SIMON et al, 2004a). (p. 21)

Concepção intelectualista da tecnologia (27)

As tecnologias derivam das reflexões teóricas científicas. Visão que hierarquiza ciência e tecnologia. Tecnologia seria apenas a aplicação ou consequência de teorias científicas.

Concepção utilitarista da tecnologia (28)

Tecnologia como sinônimo de técnica.

Ou seja, o processo envolvido em sua elaboração em nada se relaciona com a tecnologia, apenas a sua finalidade e utilização são pontos levados em consideração. (28)

Concepção da tecnologia como sinônimo de ciência (28)

Compreende a tecnologia como Ciência Natural e Matemática, com as mesmas lógicas e mesmas formas de produção e concepção. (28)

Concepção instrumentalista (artefatual) da tecnologia (29)

Concepção de neutralidade da tecnologia (29)

Concepção do determinismo tecnológico (30)

Autônoma, auto-evolutiva, “desprovida do controle dos seres humanos”.

Concepção de universalidade da tecnologia (31)

o caráter universal das leis científicas leva a uma concepção de que a tecnologia não requer uma contextualização social, nem tampouco devem ser levados em consideração os caracteres valorativos, tendo em vista que a tecnologia, como sendo fruto do desenvolvimento científico, é neutra (32)

O caso do teclado QWERTY

Otimismo tecnológico x pessimismo tecnológico (32)

Sociosistema: um novo conceito de tecnologia (33)

Em cada momento de desenvolvimento de um artefato tecnológico, especialmente quando este se consolida como produto, existe uma carga política concreta. (33)

Ciência, Sociedade e Tecnologia

As tecnologias, como formas de organização social, que envolvem o uso de artefatos ou certos modos de gestão de recursos se integram ao meio estabelecendo vínculos de interdependência funcional com outras tecnologias e diversos tipos de parâmetros sócio-econômicos e culturais. (35)

Definição de tecnologia

A tecnologia é uma forma de conhecimento.

O valor da pesquisa e da atividade tecnológica é o da utilidade e eficácia dos inventos e da eficiência no processo de produção (36)

a tecnologia é concebida em função de novas demandas e exigências sociais e acaba modificando todo um conjunto de costumes e valores e, por fim, agrega-se à cultura. E, apesar de fazer parte dos artefatos e dos produtos que nos cercam, a tecnologia é o conhecimento que está por trás desse artefato, não apenas o resultado e o produto, mas a concepção e a criação (37)

é um conjunto de saberes inerentes ao desenvolvimento e concepção dos instrumentos (artefatos, sistemas, processos e ambientes) criados pelo homem através da história para satisfazer suas necessidades e requerimentos pessoais e coletivos. (38)

a tecnologia engloba tanto seu aspecto cultural, que inclui metas, valores e códigos éticos, assim como possui um aspecto organizacional, que abrange a economia e as atividades industriais, profissionais, além dos usuários e dos consumidores (PACEY, 1983 apud LAYTON, 1988). A tecnologia não é uma mercadoria que se compra e se vende, é um saber que se adquire pela educação teórica e prática, e, principalmente, pela pesquisa tecnológica (VARGAS, 2001). (39)

Perspectiva da “Construção Social da Tecnologia”

BUCH, A. Actos, actores y artefactos: Sociología de la technología. Buenos Aires: Universiad Nacional de Quilmes Editorial, 2008, p.10.

É que, na verdade, não se trata de “suas tecnologias e você”, ou em um nível mais abstrato, a relação entre “tecnologia e sociedade”. Você é tecnologicamente constituído. Você é um ser tecnológico, independentemente de achar essa ideia agradável ou não.

Perspectiva da “Construção Social da Tecnologia”

BUCH, A. Actos, actores y artefactos: Sociología de la technología. Buenos Aires: Universiad Nacional de Quilmes Editorial, 2008, p.10.

Porque as sociedades são configuradas tecnologicamente, exatamente no mesmo tempo e nível em que as tecnologias são socialmente construídas e colocadas em uso. Todas as tecnologias são sociais. Todas as tecnologias são humanas (por mais desumanas que possam parecer às vezes).

Perspectiva da “Construção Social da Tecnologia”

BUCH, A. Actos, actores y artefactos: Sociología de la technología. Buenos Aires: Universiad Nacional de Quilmes Editorial, 2008, p.10.

A dimensão tecnológica atravessa a existência humana. Da produção à cultura, das finanças à política, da arte ao sexo.

O engraçado é que, normalmente, refletimos pouco sobre a tecnologia. Ela passa despercebida, naturalizada como a chuva ou as ondas do mar. A tecnologia só se torna visível em dois momentos particulares: quando para de funcionar ou quando muda rapidamente. (10)

Perspectiva da “Construção Social da Tecnologia”

BUCH, A. Actos, actores y artefactos: Sociología de la technología. Buenos Aires: Universiad Nacional de Quilmes Editorial, 2008, p.10.

Não existe relação sociedade-tecnologia, como se fossem duas coisas distintas. Nossas sociedades são tecnológicas, assim como nossas tecnologias são sociais. Somos seres sociotécnicos. (12)

Mas para onde vamos com os LLMs e a IA?

Computadores fazem arte. Fred Zero Quatro, 1996

Computadores fazem arte

Artistas fazem dinheiro […]

Computadores avançam

Artistas pegam carona

Cientistas criam o novo

Artistas levam a fama

E a História Digital nisso tudo?

Debate do texto:

JARDIM, José Maria. As novas tecnologias da informação e o futuro dos arquivos. Revista Estudos Históricos, v. 5, n. 10, p. 251–260, 30 jul. 1992.

  • Ponto central: impactos da “era da informação” nos arquivos e na arquivologia.

1. Historicidade da mudança tecnológica

  • Anos 1990 como marco de uma “Segunda [!?!?!] Terceira Revolução Industrial” → Era da informação.
  • Armazenamento, disseminação, criação e gestão de informações em escala sem precedentes no anos 1990. E hoje?
  • Formato X Conteúdo. O meio (físico) era central para definir o documento: a informação não era pensada como uma entidade específica (até os anos 1950).

1. Historicidade da mudança tecnológica

“As sociedades modernas estão sob um ‘choque informático’ ou seja, suas estruturas econômicas, sociais e culturais estão sendo profundamente alteradas com as novas tecnologias da informação.” (p. 253).

  • Questão: essa sensação de ruptura e aceleração lembra a forma como hoje falamos da chegada das IAs generativas?

2. Impactos nos arquivos e na arquivologia

  • As Instituições arquivísticas se organizavam em torno do formato físico dos documentos, como papel, microfilme, etc.
  • O digital impõe uma mudança: pensar abstratamente no “conjunto de símbolos que chamamos de informação.”

2. Impactos nos arquivos e na arquivologia

  • Documentos eletrônicos possuem “analogias com o documento papel”, mas estão sendo alterados: “documento hipermídia” (p. 254).
  • Questão: O que é um PDF e qual seu impacto para a pesquisa nas Humanidades digitais?

2. Impactos nos arquivos e na arquivologia

  • Emergência dos documentos eletrônicos → desafio aos conceitos de original, proveniência e preservação entre outros (p. 254).
  • Arquivista precisa atuar desde a produção até o acesso e migração tecnológica.
  • Questão: até que ponto os desafios apontados em 1992 permanecem atuais (big data, nuvem, digital born)?

3. Tecnologia e desigualdade

  • Jardim aponta o “novo colonialismo via novas tecnologias” → concentração dos bancos de dados nos EUA e Europa.
  • Novas tecnologias reforçam desigualdades globais.
  • Questão: podemos comparar com a atual concentração das IAs generativas nas big techs?

4. Brasil e os desafios institucionais

  • Arquivologia brasileira em 1992: precariedade institucional, atraso técnico, falta de políticas públicas.
  • Risco de ampliar a distância em relação ao “centro” da produção tecnológica.
  • Questão: quais paralelos podemos fazer com a situação atual da preservação digital no Brasil?

Debate do texto:

SILVEIRA, Pedro Telles da. História, técnica e novas mídias : reflexões sobre a história na era digital. Doutorado — Porto Alegre: UFRGS, 2018.

  • Ponto central: impacto das novas mídias digitais na prática historiográfica → do paradigma impresso aos objetos digitais.

1. O que são as “novas mídias”?

  • Não se trata apenas de novos suportes, mas de novas formas de produzir, armazenar e acessar informação.
  • O digital gera documentos de natureza própria: objetos digitais.
  • Questão: como diferenciar um documento digitalizado de um objeto nascido-digital?

2. Transformações na pesquisa histórica

  • O digital muda o regime de historicidade → aceleração do tempo, excesso de fontes, novas formas de memória.
  • Arquivos e bancos de dados digitais tornam-se atores ativos na construção da história.
  • Questão: como essa abundância de dados impacta a forma de fazer pesquisa histórica hoje?

3. Desafios teóricos e metodológicos

  • Crítica das fontes deve incluir formatos, sistemas e softwares que constituem o documento.
  • Risco de naturalizar o digital como mera ferramenta.
  • Questão: em que medida precisamos reinventar a “crítica das fontes” diante dos objetos digitais?

4. História Digital e interdisciplinaridade

  • História Digital não é só uso de ferramentas, mas um novo regime epistemológico.
  • Exige diálogo com Ciência da Informação, Arquivologia e Computação.
  • Questão: a História Digital é uma “nova disciplina” ou apenas uma ampliação metodológica da História?