Aula 9: Era das Abolições II — Guerra Civil e Abolição nos EUA (1861-1865)

Eric Brasil

quinta-feira, 7 de maio de 2026

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Objetivos da aula

  • Analisar a Guerra Civil estadunidense (1861-1865) e suas implicações para a abolição da escravidão.
  • Compreender o papel dos movimentos sociais — em especial dos afro-americanos — na luta pela liberdade.
  • Discutir, a partir de Drescher (2011) e Izecksohn (2017), por que e como a guerra se tornou guerra contra a escravidão.
  • Refletir, com Miranda (2015), sobre as repercussões da Guerra Civil no debate abolicionista brasileiro.

Recapitulando: Aula 8

  • Era das Abolições I — Caribe.
  • Diferentes caminhos para o fim da escravidão: emancipação britânica (1833-1838), ações de liberdade na Martinica, abolição francesa de 1848.
  • Hoje: o caso mais sangrento — os EUA.

Parte I — O abolicionismo nos EUA antes da guerra

Abolicionismo emerge na sociedade dos EUA

  • Nas décadas de 1830 e 1840, o abolicionismo nos Estados Unidos ganha força no Norte, especialmente em Massachusetts.
  • Influência de movimentos internacionais — sobretudo do Reino Unido — após a emancipação britânica (1833-1838).
  • Inovação tática: campanhas em massa, publicações, turnês de palestras, mobilização de petições.

Mobilização abolicionista

  • Sociedade Antiescravagista Americana (AAS), fundada logo após a Lei de Emancipação Britânica.
  • Em 5 anos: mais de 1.300 organizações locais nos estados do norte, com 100.000 membros.
  • Entre 1834 e 1840: milhões de folhetos publicados, turnês com palestras abolicionistas.

Influência religiosa e moral

  • O Second Great Awakening impulsionou ação moral e organização política contra a escravidão.
  • William Lloyd Garrison exaltou o modelo britânico como “o maior milagre moral da época”.
  • No Sul, as elites defendiam a escravidão como “benção” e “parte do plano divino” — argumentos racializados.

Participação feminina e Gag Rule

  • Estratégia da petição foi amplamente feminina:
    • 400.000 peticionários entre 1837 e 1838.
    • 286.000 eram mulheres — entrada importante na esfera pública nacional.
  • Gag Rule (1836-1844): bloqueio das petições abolicionistas no Congresso.
  • Efeito inesperado: a oposição ao direito de petição mobilizou setores da sociedade que não eram diretamente abolicionistas.

Parte II — Economia escravista e divisão continental

Economia do Sul escravista

  • O algodão dominava a economia do sul: quase metade do valor das exportações dos EUA entre 1820 e 1860.
  • Mão de obra escravizada era central na produção agrícola.
  • Entre 1840 e 1860, o sul cresceu mais rápido que o norte, com infraestrutura avançada — incluindo extensa malha ferroviária.

Comparação Sul × Norte

  • Embora atrás do norte e da Grã-Bretanha em industrialização, o sul tinha setores comerciais e industriais relativamente dinâmicos.
  • Riqueza concentrada: quase dois terços dos homens com patrimônio acima de 100.000 dólares residiam em estados escravistas.
  • O norte, povoado por milhões de imigrantes europeus a partir dos anos 1840, deslocava o equilíbrio eleitoral em sua direção a cada década.

A “contração” — segundo Drescher

O destino da escravidão nos EUA foi politicamente decidido na disputa pela expansão territorial — não em função do declínio econômico do Sul.

(DRESCHER, 2011, pp. 451-473)

  • A escravidão estadunidense não era um sistema moribundo quando foi mortalmente ferida.
  • Foi necessário “esmagador poder político ou militar” para encerrá-la.

A divisão continental

  • A questão central: a expansão da escravidão para os territórios ocidentais.
  • Compromisso de Missouri (1820): linha divisória 36°30′ entre estados livres e escravistas.
  • Anexação do Texas (1845), Guerra com o México (1846-1848), Compromisso de 1850 — cada estágio reabre a disputa.

O eixo Texas-Caribe

  • Drescher destaca a dimensão transatlântica do debate.
  • John C. Calhoun mobilizou as dificuldades das colônias britânicas pós-emancipação para uma defesa global da escravidão.
  • A “desilusão” com a emancipação britânica e a dependência do algodão alimentaram a aposta sulista de apoio europeu em caso de secessão.

Lei do Escravo Fugitivo (1850)

  • O Compromisso de 1850 incluiu uma Lei de Escravos Fugitivos mais rígida.
  • Permitia a captura de fugitivos nos estados livres do Norte.
  • Gerou revolta abolicionista e nova onda de resistência — afro-americanos e aliados brancos.
  • Underground Railroad: rede clandestina de fuga para o Norte e Canadá.

Rotas de fuga pela “Underground Railroad”

Kansas-Nebraska e Bleeding Kansas

  • Lei Kansas-Nebraska (1854), de Stephen Douglas: cada novo território decidiria por “soberania popular”.
  • Eliminou na prática o Compromisso de Missouri.
  • Resultado: violência política — “Bleeding Kansas” — e o desabamento do sistema bipartidário.
  • 1856: o senador Charles Sumner (MA) é espancado no Senado por Preston Brooks (SC).

Dred Scott e o impasse jurídico

  • Decisão Dred Scott (1857): a Suprema Corte declara que o Congresso não pode interferir nos direitos sulistas de propriedade nos territórios.
  • Os afro-americanos não eram nem poderiam ser cidadãos dos EUA.
  • A decisão fechou o caminho para qualquer compromisso legislativo.

Dissolução do sistema de partidos

  • A questão da expansão da escravidão desintegrou o Partido Whig.
  • 1854: surge o Partido Republicano, com plataforma de “solo livre”.
  • 1860: eleição de Abraham Lincoln — catalisador final da secessão.

Mathew Brady’s Portrait of Abraham Lincoln, 1860

Fonte

Parte III — A Guerra Civil (1861-1865)

Cronologia I: secessão e início (1860-1861)

  • 6/11/1860: Lincoln é eleito presidente.
  • 4/2/1861: estados do Sul formam a Confederate States of America, com Jefferson Davis.
  • 12/4/1861: começa a guerra com o ataque a Fort Sumter.
  • 21/7/1861: Primeira Batalha de Bull Run — vitória confederada. A guerra será longa.

Cronologia II: 1862, ano de tensão

  • 9/3/1862: batalha naval entre os couraçados Monitor e Merrimack.
  • 6-7/4/1862: Batalha de Shiloh — vitória da União com pesadas baixas.
  • 17/9/1862: Batalha de Antietam — o dia mais sangrento da guerra. Vitória estratégica que prepara a Proclamação de Emancipação.

Battle of Antietam — Thure de Thulstrup, 1862

Fonte

Cronologia III: 1863, ponto de virada

  • 1/1/1863: Lincoln emite a Proclamação de Emancipação — liberta escravizados nos estados confederados e autoriza o alistamento de afro-americanos no exército da União.
  • 1-3/7/1863: Batalha de Gettysburg — vitória decisiva da União.
  • 4/7/1863: queda de Vicksburg — controle do rio Mississippi, divisão da Confederação.

Cronologia IV: marcha para a vitória (1864-1865)

  • Novembro 1864: Marcha de Sherman ao Mar — destruição da infraestrutura sulista.
  • 1864: Lincoln é reeleito.
  • 9/4/1865: General Lee se rende a Grant em Appomattox Court House.
  • 14/4/1865: Lincoln é assassinado.
  • 26/4/1865: rendição final das tropas confederadas.

Custos da guerra

  • Aproximadamente 620.000 a 850.000 mortes.
  • Drescher: a Guerra Civil produziu o maior contingente militar de homens de descendência africana que participou dos conflitos do Novo Mundo (DRESCHER, 2011, p. 469).
  • Resultado: preservação da União, abolição da escravidão (13ª Emenda, 1865) — mas a luta por igualdade racial está apenas começando.

Parte IV — Afro-americanos como agentes da emancipação

A questão racial no início da guerra

  • Lincoln, no início, recusa o alistamento negro.
  • Objetivo: preservar os Border States (Delaware, Kentucky, Maryland, Missouri).

Frederick Douglass, maio de 1861:

“Estamos prontos para partir, sentindo-nos felizes em servir e sofrer pela causa da liberdade e das instituições livres. Mas vocês não nos deixarão ir.”

(DOUGLASS apud IZECKSOHN, 2017, p. 183)

“Contrabando de guerra”

  • Maio de 1861: general Benjamin Butler, em Forte Monroe (Virgínia), recusa-se a devolver fugitivos.
  • Argumenta: são “contrabando de guerra”.
  • A categoria evita definir o status legal dos fugitivos, mas abre precedente.
  • Segundo Ato do Confisco (agosto de 1862): confirma a política.

“Votar com os pés”

  • Cerca de 520.000 afro-americanos da Confederação cruzaram para as linhas da União durante a guerra.
  • A fuga em massa desorganiza a economia e o esforço de guerra confederado.

Susie King Taylor, ex-escravizada da Carolina do Sul:

“Eu queria tanto encontrar esses maravilhosos Yankees, enquanto ouvia meus pais dizerem que os Yankees iriam nos libertar a todos.”

(TAYLOR apud IZECKSOHN, 2017, p. 186)

Experiências iniciais com soldados negros

  • Iniciativas locais, sem sanção federal:
    • Butler (Louisiana, 1862): organiza o primeiro regimento negro da União.
    • Hunter (Carolina do Sul, 1862): recrutamento forçado em Port Royal — gera desconfiança duradoura entre os ex-escravizados.
    • Lane (Kansas, 1862): inova ao usar agentes recrutadores negros.

A Proclamação de Emancipação (1863)

  • 1° de janeiro de 1863: Lincoln autoriza o alistamento de libertos.
  • Medida apresentada como medida de guerra — não apenas humanitária.
  • Em maio de 1863: criada a Bureau of Colored Troops, centralizando a organização dos regimentos negros sob comando federal.

United States Colored Troops (USCT)

  • Cerca de 180.000-200.000 afro-americanos serviram no exército da União — 10% das tropas.
  • 144.000 (78,5%) provinham de estados escravistas.
  • Mesmo número per capita de mortes da Revolução Haitiana — em magnitude, o maior contingente militar afrodescendente das Américas (DRESCHER, 2011, p. 469).

Come and Join Us Brothers, by the Supervisory Committee For Recruiting Colored Regiments

Fonte

Men of Color Civil War Recruitment Broadside, 1863

Fonte

Sgt. Samuel Smith, soldado afro-americano em uniforme da União, com esposa e duas filhas

Fonte

O 54º de Massachusetts

  • Fevereiro-maio de 1863: formados o 54º e o 55º de infantaria “colored” de Massachusetts.
  • Frederick Douglass, Martin Delany, John Langston entre os recrutadores.
  • 18/7/1863: ataque a Fort Wagner (Carolina do Sul) — pesadas baixas, mas reputação de coragem.
  • Acelerou o recrutamento negro nos demais estados do Norte.

“Fardo da raça”

  • Apesar da bravura, os USCTs foram tratados como cidadãos de segunda classe:
    • Regimentos segregados.
    • Salários inferiores até 1864.
    • Proibição de oficialato negro.
    • Funções degradantes; alta taxa de mortalidade por doenças.

Cidadania pelo serviço militar

  • Izecksohn: o recrutamento federal federalizou direitos.
  • Alterou a relação entre cidadãos e governo federal.
  • Ira Berlin: minor revolution.
  • Politizou milhares de afro-americanos, criando lideranças que seriam centrais na Reconstrução.

Parte V — Discussão da bibliografia

Drescher (2011) — questão para debate

  • A tese: a escravidão estadunidense não era moribunda quando foi destruída.
  • Foi necessário “esmagador poder político ou militar” para encerrá-la.

Pergunta: se a escravidão era economicamente robusta às vésperas da guerra, o que explica seu fim? Que peso atribuir à expansão territorial, ao abolicionismo, à ação dos próprios escravizados?

Drescher (2011) — eixo transatlântico

A combinação do acesso dos abolicionistas ao governo britânico com a afirmação do reiterado interesse de Aberdeen na abolição “em todos os lugares” deu ao governo dos Estados Unidos em Washington um atrativo muito vantajoso para que o Congresso aprovasse a anexação do Texas. (DRESCHER, 2011, p. 454)

Pergunta: como o abolicionismo britânico funcionou como variável estratégica do debate político estadunidense entre 1840 e 1860?

Izecksohn (2017) — protagonismo afro-americano

A despeito do papel crucial desempenhado pelo governo federal no desmantelamento da escravidão, foram os próprios escravos que fizeram a maior contribuição. (IZECKSOHN, 2017, p. 204)

Pergunta: como o conceito de “votar com os pés” redefine quem são os agentes da emancipação? O que muda em uma narrativa centrada em Lincoln e os generais brancos?

Izecksohn (2017) — limites do recrutamento

  • Recrutamento forçado em Port Royal e na Louisiana.
  • “Caçada humana” familiar a brasileiros da mesma época.
  • Salários desiguais, oficialato negro proibido, alta mortalidade por doenças.

Pergunta: em que medida o serviço militar foi caminho para a cidadania e em que medida reproduziu, internamente, as hierarquias raciais que a guerra supostamente combatia?

Miranda (2015) — repercussões no Brasil

  • Silvério da Mota, no Senado brasileiro (1861):

“se acaso os Estados do Sul da Confederação Norte Americana tivessem seguido esse sistema de ir melhorando a condição legal dos seus escravos, talvez senhores, não víssemos hoje em perigo a União Norte Americana.” (MOTA apud MIRANDA, 2015, p. 4)

Pergunta: como o exemplo da Guerra Civil foi mobilizado, no debate político brasileiro, para justificar uma abolição “lenta, gradual e sem conflitos”?

Miranda (2015) — imaginário comparado

  • O contraste com a violência da Guerra Civil ajudou a construir o mito de uma escravidão brasileira “branda” e de relações raciais “harmoniosas”.

Pergunta: que efeitos esse imaginário comparado produz até hoje sobre como pensamos as relações raciais no Brasil?

Síntese

  • Guerra Civil = guerra contra a escravidão só quando o conflito está bem avançado (Drescher).
  • Afro-americanos foram agentes, não apenas beneficiários (Izecksohn).
  • O exemplo estadunidense ressoou em outras sociedades escravistas — inclusive no Brasil (Miranda).
  • A 13ª Emenda (1865) aboliu a escravidão, mas não removeu a continuidade da privação de direitos no Sul.

Recursos audiovisuais

A guerra dia a dia

Harriet Tubman e a estrada para liberdade

Frederick Douglass

Bibliografia da aula

Leitura obrigatória:

  • DRESCHER, Seymour. O fim da escravidão na América Inglesa. In: Abolição: uma história da escravidão e do antiescravismo. São Paulo: Editora UNESP, 2011. pp. 451-473.
  • IZECKSOHN, Vitor. O recrutamento de negros nas tropas da União durante a Guerra Civil Americana. Afro-Ásia, n. 55, p. 177–212, 2017.

Bibliografia da aula

Complementar:

  • MIRANDA, Clícea Maria. Repercussões da Guerra Civil Americana no debate político sobre a abolição no Brasil, 1861-1888. Anais do VII Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Curitiba: UFPR, 2015.