Aula 8: Era das Abolições I — Caribe
Eric Brasil
quinta-feira, 30 de abril de 2026
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A Era das Abolições no Caribe
- O século XIX marca o longo processo de extinção da escravidão nas Américas.
- No Caribe, a abolição não foi um ato unilateral da metrópole — foi resultado de pressões convergentes: revoltas escravas, mobilizações abolicionistas, cálculos imperiais.
- O Caribe britânico será o primeiro a abolir, mas o processo foi gradual, contraditório e marcado pela resistência negra.
Os caminhos da abolição no Caribe britânico
- 1807 — Abolição do tráfico transatlântico de escravos pelo Parlamento britânico.
- 1816 — Revolta escrava na Barbados (Bussa’s Rebellion).
- 1823 — Revolta escrava na Demerara (Guiana Britânica).
Os caminhos da abolição no Caribe britânico
- 1831–1832 — Grande revolta na Jamaica (Baptist War / Christmas Rebellion).
- 1833 — Slavery Abolition Act — abolição com sistema de Aprendizado.
- 1838 — Fim do Aprendizado — abolição definitiva.
Revoltas escravas e pressão abolicionista
- A revolta escrava da década de 1760 na Jamaica e, sobretudo, a Revolução do Haiti (1791) colocaram em questão o temor da insurreição generalizada.
- Segundo Claudius Fergus, o temor de uma “Emancipação Revolucionária” foi central para a virada abolicionista britânica — não apenas o humanitarismo metropolitano.
- A questão central era: prosperidade versus segurança.
Trinidad e o debate sobre o tráfico
- Trinidad, conquistada pelos britânicos em 1797, apresentava terras férteis e disponíveis — atrativo mercado de escravos.
- Entre 1802 e 1804, mais de dez mil africanos escravizados desembarcaram na ilha.
- A exportação de açúcar praticamente dobrou entre 1799 e 1802 (Matthews, 2007).
- Abolicionistas argumentavam que Trinidad poderia se tornar um “novo Santo Domingo”.
O fim do tráfico (1805) e o “modelo Trinidad”
- Campanha liderada por George Canning: Trinidad como modelo de “colonização crioula” — soldados dos regimentos de negros das Índias Ocidentais, africanos livres, trabalhadores da Venezuela, ameríndios, imigrantes asiáticos.
- A ilha se torna Colônia da Coroa (Crown Colony): controle rígido do governo metropolitano, sem assembleia legislativa eleita localmente.
O Emancipation Act (1833)
Quatro pontos centrais:
- Todos os escravos seriam libertados sem provisões restritivas especiais.
- Novo status: aprendizes (Apprenticeship) — ex-escravos obrigados a trabalhar para ex-senhores por 4 a 6 anos.
- Indenização aos senhores: 20 milhões de libras (~40% do valor de mercado dos escravos).
- Nenhuma indenização aos escravos por seus anos de trabalho não remunerado.
Crítica ao processo de abolição
“O processo prezou pelo respeito pela ordem, processos legais e direitos de propriedade.”
— Eric Foner, 1988, p. 33
Crítica ao processo de abolição
- Fazendeiros permaneceram com o controle sobre as terras e, em muitos casos, com o poder político nas colônias — e ainda foram indenizados.
- O sistema de Aprendizado visava “suavizar a transição” e “remoldar a cultura dos ex-escravos” (Foner, 1988, p. 36–37).
- Ex-escravos deveriam trabalhar máximo 45 horas/semana para ex-senhores.
O fim do Aprendizado (1838)
- Insatisfação e ação dos libertos contra o sistema de Aprendizado — amparado por magistrados punitivos.
- Pressão dos libertos nas colônias + lobby antiescravista na metrópole → extinção do Aprendizado dois anos antes do previsto.
- Em Trinidad, cerca de 80% da população geral era de “aprendizes”.
- O Emancipation Day passa a ser celebrado em 01 de agosto a partir de 1838.
Pós-abolição: aldeias camponesas e conflito
- Após 1838, onde havia terra disponível (Jamaica, Trinidad, Guiana), houve “deserção quase total das propriedades” (Foner, 1988, p. 41).
- Surgimento de aldeias camponesas — propriedades adquiridas por compra, mediante poupança coletiva (sociedades de amigos, grupos religiosos).
- Em Trinidad: produção camponesa de cana e cacau foi elevada — mas à mercê de condições climáticas, mercado mundial e autoridades políticas hostis.
Imigração e controle do mercado de trabalho
- Fazendeiros iniciam política de importação de trabalhadores contratados para pressionar salários.
- Entre 1844 e 1881, imigrantes compunham 41% a 46% da população de Trinidad (Liverpool, 2001, p. 254).
- Mais de 144 mil indianos (Coolies) aportaram em Trinidad entre 1838 e 1917 (Samaroo, 2011).
- Também chineses e portugueses (Madeira, Cabo Verde, Açores), em menor escala.
Imigração indiana: segregação e tensão
- Indianos eram encaminhados para plantations sob contrato mínimo de cinco anos.
- Mantiveram coesão cultural e práticas endogâmicas — evitaram crioulização acentuada.
- Para as autoridades coloniais, isso era vantajoso: diminuía a possibilidade de alianças com os negros.
Imigração indiana: segregação e tensão
- A tensão entre indianos e negros foi marca da sociedade de Trinidad no século XIX.
- Em Port-of-Spain, porém, a presença indiana foi pequena até o início do século XX.
Sociedade Crioula e categorias raciais
Segundo Bridget Brereton:
- Pessoa de cor (coloured): ascendência mestiça europeia e africana, compleição clara.
- Negro (black): ascendência africana sem mistura ou predominantemente africana.
- Africano: pessoa nascida na África.
Sociedade Crioula e categorias raciais
Segundo Bridget Brereton:
- Crioulo (Creole): nascido em Trinidad de ascendência europeia e africana.
- French Creole: ascendência europeia (normalmente francesa), considerado “branco puro”.
“A sociedade Crioula nas Índias Ocidentais envolvia duas tradições culturais, a africana e a europeia. […] As tradições africanas receberam baixo prestígio em comparação com aqueles derivados da Europa.”
— Brereton, 2002, p. 2
O mito do “carnaval branco, ordeiro e civilizado”
- Memorialistas como Borde (1876) e Fraser (1896) construíram uma narrativa nostálgica: o carnaval pré-1838 seria uma festa exclusiva das elites francófonas, pacífica e civilizada.
- A abolição teria trazido “orgias e desordens” — os libertos teriam “degradado” a festa.
- Essa narrativa tornou-se um mito fundador do carnaval negro de Trinidad, como se antes de 1838 negros não participassem de festas.
Participação negra antes da abolição
- Regiments (1797–1830): grupos negros com estrutura militarizada, rei, rainha, tambores de origem africana — desfilavam no período natalino.
- Regulamentações policiais logo após a conquista britânica (1797) já controlavam estritamente danças e reuniões negras.
- Em 1833, o Port-of-Spain Gazette relata prisão de mascarados — e represália coletiva das “classes baixas”.
“A lei espanhola permaneceu válida em Trinidad até a década de 1830, mas as regulamentações policiais […] controlavam estritamente atividades de dança nas comunidades negras livres e escravas.”
— Cowley, 1992, p. 180
O Carnaval pós-abolição: a festa como direito
- Após 1838, a celebração do Emancipation Day foi incorporada aos dias de carnaval.
- Segundo Earl Lovelace, o governo colonial escolheu o carnaval para incorporar a festa da Emancipação “pelo conhecimento de que o Jouvay, carnaval das ruas, era ele mesmo criado e mantido pelas classes mais baixas de africanos” (Lovelace, 1998, p. 54).
- Quanto maior a participação negra, maiores os ataques da imprensa contra a “degradação” da festa.
A revolta do Canboulay (1881)
- O Canboulay havia se consolidado como forma central de brincar o carnaval entre a população negra de Port-of-Spain.
- Entre 1877 e 1881, o chefe de polícia Capitão Baker adotou medidas repressivas.
- Os variados grupos rivais de Canboulay se unem contra a polícia.
- Utilizando cacetes e reivindicando direitos, os revoltosos conquistam a garantia de manter sua prática — com anuência do governador.
“Acompanhado pelo som de tambores e pelo canto e lamento dos participantes, esse acentuado lembrete da escravidão era quase certamente muito próximo da realidade do passado para o conforto de uma culpada (e temerosa) plantocracia.”
— Cowley, 1992, p. 220
Carnaval como espaço de crítica e afirmação
- O carnaval pós-abolição era constituído por trabalhadores urbanos negros, moradores das Barracks de Port-of-Spain.
- Ocupar as ruas nos dias de carnaval = representação pública de críticas ao passado escravista e às práticas racistas do presente.
Carnaval como espaço de crítica e afirmação
- Camadas médias negras se afastavam do carnaval das ruas — buscando incorporar valores da branquitude europeia
- Setores médios só passam a participar do carnaval a partir de 1900.
Abolição nas colônias francesas do Caribe
- A abolição na Martinica e Guadalupe seguiu um caminho distinto do Caribe britânico.
- A Revolução Francesa (1789) trouxe a primeira abolição (1794), mas Napoleão restabeleceu a escravidão em 1802.
- A abolição definitiva só viria em 1848 — 15 anos depois do Caribe britânico.
- No intervalo, a disputa pela alforria se torna arena política e jurídica central.
A “arca santa” do domínio senhorial
“Cegos, eles ainda pesam numa mesma balança as barricas de açúcar contra a liberdade de 250.000 escravos, e acham a liberdade muito leve.”
— Adolphe Gatine, 1844
A “arca santa” do domínio senhorial
- O direito de alforriar era a “arca santa” do poder senhorial — prerrogativa exclusiva dos proprietários.
- Até a década de 1820, as alforrias estavam praticamente interditadas na Martinica.
- A liberdade de savana (irregular, sem título legal) era a forma mais acessível de liberdade — mas mantinha a dependência do liberto em relação ao senhor-patrono.
Monarquia de Julho (1830–1848): mudanças legislativas
- 1831 — Extinção do imposto sobre alforrias; início da regularização dos patrocinados.
- 1832 — Ordenação Real sobre alforrias: todo livre de facto pode solicitar título oficial → presunção de liberdade.
- 1833 — Lei de 24 de abril: direitos civis e políticos aos libertos, independentemente da cor.
Monarquia de Julho (1830–1848): mudanças legislativas
- 1836 — Lei de 29 de abril: regulamenta sobrenomes dos libertos nas colônias.
- 1839 — Ordenação de 11 de junho: escravo que casa com pessoa livre torna-se “livre de direito”.
- 1845 — Lei Mackau: reconhece escravos como “pessoas não livres”, institui o resgate forçado.
A resistência dos colonos
- Delegados coloniais (Barão de Cools, Félix Patron) defendiam que a alforria era matéria exclusiva da colônia.
- Argumentavam que a liberdade seria um “fardo” para os escravos — e para a “ordem pública”.
A resistência dos colonos
- A presunção de liberdade era vista como perigosa: os escravos poderiam “arrastar seus senhores diante dos tribunais”.
- Paradoxo: senhores diziam sentir o “peso” da patronagem, mas queriam mantê-la como instrumento de controle.
O Code Noir (1685) e a alforria
- O Édito de 1685 (Code Noir) regulava a escravidão nas colônias francesas.
- Art. 55: senhores com mais de 20 anos poderiam alforriar seus escravos “sem prestar razão”.
- Art. 47: proibia a venda separada de marido, mulher e filhos impúberes sob o mesmo senhor.
O Code Noir (1685) e a alforria
- Contudo: Art. 31: escravos não podiam participar de processos civis.
- O Código Negro seria reinterpretado nas décadas de 1830–1840 como instrumento de liberdade.
Mães escravas, ações de liberdade e poto mitan
- As mulheres — escravas e libertas — foram protagonistas nas ações de liberdade no Caribe francês.
- O conceito crioulo poto mitan (“o pilar do meio”): mulher que sustenta sozinha seu lar e filhos.
Mães escravas, ações de liberdade e poto mitan
- Crítica de Cottias: o modelo da família patriarcal burguesa foi usado como critério de cidadania, excluindo mulheres pobres.
- Cowling demonstra que as mulheres não agiam sozinhas: redes de parentesco, madrinhas, companheiros e advogados formavam uma teia de apoio.
Ação judicial × Abolição geral
- Schoelcher: reconhecia o valor das ações, mas defendia a abolição imediata e geral.
- Em 1847: 253.514 escravos nas colônias francesas; ~1.200 alforrias/ano por ações judiciais.
Ação judicial × Abolição geral
- Canelas demonstra que as ações de liberdade não competiam com a abolição geral — eram complementares:
- Desgastavam o domínio senhorial.
- Criavam jurisprudência que enfraquecia o sistema escravista.
- Mostravam que os escravos percebiam as contradições do sistema e as exploravam.
Abolição de 1848 no Caribe francês
- 27 de abril de 1848: Decreto de abolição da escravidão nas colônias francesas.
- Na Martinica, a escravidão foi abolida imediatamente em 23 de maio de 1848 — antes do prazo legal — pela pressão dos escravos.
- Comissão de Abolição presidida por Schoelcher, com participação de Gatine e Perrinon.
Abolição de 1848 no Caribe francês
- A abolição francesa, ao contrário da britânica, não instituiu sistema de Aprendizado.
- Mas as lutas judiciais anteriores a 1848 já haviam desestruturado o sistema escravista por dentro.
Bibliografia da aula
Leitura obrigatória:
- BRASIL, Eric. “Abolição e Carnaval: performance e experiência social negra em Trinidad (cc. 1790-1850)”. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas, V.12, N.3, 2018. pp. 204–227.
- CANELAS, Letícia Gregorio. Escravidão e liberdade no Caribe francês: a alforria na Martinica sob uma perspectiva de gênero, raça e classe (1830-1848). Dissertação (Mestrado) — Unicamp, 2017. Capítulo 5.
Bibliografia da aula
Complementar:
- FONER, Eric. Nada além da liberdade: a emancipação e seu legado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
- FERGUS, Claudius. Revolutionary Emancipation: Slavery and Abolitionism in the British West Indies. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 2013.