Aula 7: Formação dos Estados Nacionais da América Latina

Eric Brasil

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Acesse a apresentação

Da Independência ao Estado Nacional

  • Aula 6: como as colônias se emanciparam
  • Aula 7: o que veio depois — e por que tardou a vir

Texto-base da aula

WASSERMAN, Claudia. A formação do Estado Nacional na América Latina: as emancipações políticas e o intrincado ordenamento dos novos países. In: História da América Latina: cinco séculos (temas e problemas). 3. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS. Cap. 5, pp. 177-214.

Tese central de Wasserman

A formação do Estado Nacional latino-americano resulta de dois processos indissociáveis:

Processo Caráter
Internacionalização do capitalismo econômico-social
Emancipação das colônias ibéricas político-militar

Por que o modelo europeu não serve?

  • Europa: capitalismo consolidado → burguesia → Estado nacional
  • América Latina: emancipação política antes do capitalismo consolidado
  • Ausência de: mercado interno, burguesia nacional, identidade prévia

O problema central

Faltava um elemento aglutinador

Uma comunidade de interesses capaz de atuar no plano político — e uma identidade nacional que a sustentasse.

A elite criolla e o poder

  • Ideias de Independência: pré-nacionais
  • Poder local ou regional — não nacional
  • Economia voltada para fora — não há mercado interno a defender
  • Revolução pelo alto: medo das massas (Tupac Amaru, Haiti)

O resultado territorial

  • 17 repúblicas a partir de 4 vice-reinos
  • Limites = divisões administrativas coloniais
  • Divisões arbitrárias decretadas pelo alto
  • Sonho bolivariano da nação hispano-americana: fracasso

A fase da anarquia (c. 1820-1850)

Não é desordem — é transição entre formas produtivas diversas até o predomínio do capitalismo.

(Cueva, 1977)

Três problemas estruturais

  1. Escassez de capitais (fuga metálica, inadimplência)
  2. Demanda retraída nos mercados externos
  3. Queda de preços dos produtos primários

Militarização e caudilhismo

  • Militares como árbitros entre frações da elite
  • Sem “espírito de corpo”
  • Parte das frações da classe dominante em armas

Liberais × Conservadores

Liberais Conservadores
Modelo Federalismo (EUA) Monarquia / centralização (Inglaterra)
Propriedade Individual, mercado Corporativa, Igreja, comunal
Estado Laico Católico
Economia Capitalismo exportador Tradição colonial

Cinco casos exemplares

País Característica
México Independência pelo alto; conservadorismo
Argentina Caudilhismo; hegemonia portenha
Chile Estabilidade precoce; êxito militar
Peru/Bolívia Isolamento; desarticulação
América Central Fragmentação

As Reformas Liberais (1850-1880)

Conteúdo:

  • Fim dos dízimos e alcabalas
  • Nacionalização dos bens do clero
  • Liberação das terras comunais indígenas
  • Criação de mercado de terras e de trabalho

Exemplos concretos

  • México: Lei Juárez (1855), Lei Lerdo (1856-57), Nacionalização dos Bens do Clero (1861)
  • Guatemala: extinção dos ejidos (Rufino Barrios, 1873-1885); Regulamento dos Jornaleiros (1877)
  • Peru: Castilla (1845-62) — abolição da escravidão + coolies chineses

A violência das reformas

  • Argentina: Campanha do Deserto (Roca, 1878-85)
  • Chile: extermínio dos araucanos
  • México: dissolução das comunidades (Porfirio Díaz)

“Entre 1850 e 1870 houve mais usurpações de terras das comunidades indígenas do que em toda a vida independente dos países.”

(HALPERÍN DONGHI, 1991, p. 39)

A via oligárquica

Agustín Cueva (1977): o capitalismo latino-americano

  • NÃO se implantou por revolução democrático-burguesa
  • Nasceu subsumido à divisão internacional do trabalho
  • Conduzido pelas oligarquias primário-exportadoras

A consolidação (1880+)

  • Estabilidade social, econômica e política
  • Inserção plena no capitalismo mundial
  • Função subordinada no concerto internacional

Cuba, 1898: a última Independência

  • Guerra pela Independência cubana (1895-1898)
  • Intervenção dos EUA (1898)
  • Emenda Platt (1901): direito de intervenção norte-americana

José Martí, duas batalhas

“Impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se alastrem pelas Antilhas e caiam, com essa força a mais, sobre nossas terras de América.”

(MARTÍ, 1991, p. 252, apud WASSERMAN, 2010, p. 213)

A virada do século

“A idade contemporânea começa justamente alguns anos antes de terminar o século XIX, com a última batalha pela Independência colonial vencida e a primeira batalha perdida contra o imperialismo.”

(WASSERMAN, 2010, p. 214)

Para a discussão

Se o modelo europeu de formação do Estado Nacional não se aplica à América Latina, como entender o que aconteceu aqui — sem cair nem na ideia de “atraso” nem no elogio fácil da “via oligárquica”?

Vamos debater a partir do texto.

Bibliografia da aula

  • WASSERMAN, Claudia. A formação do Estado Nacional na América Latina: as emancipações políticas e o intrincado ordenamento dos novos países. In: História da América Latina: cinco séculos (temas e problemas). 3. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, pp. 177-214.

Complementar

  • PRADO, Maria Lígia Coelho. “Sonhos e desilusões nas independências hispano-americanas”. In: América Latina no Século XIX: Tramas, Telas e Textos. São Paulo: Edusp, 2ª ed.