Aula 6: Independências da América Hispânica

Eric Brasil

quinta-feira, 16 de abril de 2026

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Objetivos da aula

  • Situar a crise do Império espanhol e as Reformas Bourbon
  • Debater se as independências foram revoluções (Mäder, 2008)
  • Reconstruir as campanhas e seus sujeitos (Prado & Pellegrino, 2014)
  • Discutir os limites da cidadania nas novas repúblicas

Os dois textos da aula

  • Mäder (2008): balanço historiográfico — como diferentes correntes interpretam as independências
  • Prado & Pellegrino (2014): narrativa das campanhas e da construção dos Estados nacionais
  • Mäder dá o mapa das interpretações; Prado & Pellegrino encarnam o processo em sujeitos e conflitos

Parte I — A crise do Império espanhol

Transformações (séc. XVII–XIX)

  • Economia: crise da prata, avanço de Inglaterra e França, comércio ilícito
  • Política: Reformas Bourbon e centralização
  • Sociedade: elite crioula em ascensão, tensões populares

Reformas Bourbon

  • Carlos III (1759–1788): modernização do império
  • Liberação parcial do comércio e novos impostos
  • Novos vice-reinos (ex.: Rio da Prata, 1776)
  • Enfraquecimento das elites locais e descontentamento crioulo

1808: a crise dinástica

  • Invasão napoleônica da Espanha
  • Abdicação forçada de Fernando VII
  • Formação de Juntas locais na península e nas Américas
  • Abertura de um debate sobre soberania

Constituição de Cádiz (1812)

  • Regime constitucional monárquico
  • Soberania nacional e separação de poderes
  • Abolição da Inquisição, do tributo indígena e da mita
  • Voto amplo — com exclusão dos afrodescendentes

Impactos nas colônias

  • Primeira participação legislativa americana
  • Descentralização e legitimação das Juntas
  • Reação realista após 1814: retorno do absolutismo
  • Formação de uma cultura constitucionalista

Para discussão

Como a Constituição de Cádiz articulou inclusão e exclusão?

Em que medida sua revogação em 1814 acelerou a ruptura com a Espanha?

Parte II — Revolução ou não?

Por que importa o conceito?

  • “Consenso terminológico” esconde diferenças profundas
  • Cada conceito de revolução implica uma leitura distinta do processo
  • Três grandes significados em disputa no século XX

(Mäder, 2008)

1. Consenso liberal-nacionalista

  • Predomínio até fins dos anos 1950
  • Revolução = mera ruptura do vínculo colonial
  • Visão maniqueísta: gachupines × patriotas
  • Silenciamento de indígenas e negros
  • Postura anacrônica: nacionalismo antes dos Estados

2. Revolução atlântica

Godechot e Palmer

  • Independências como parte do ciclo atlântico e burguês
  • Contexto da Guerra Fria e da produção norte-atlântica
  • Causalidade externa: ruptura vinda “de fora”
  • Pouca atenção às dinâmicas internas

3. Chaunu e a crítica marxista

  • Chaunu (1973): contradições internas da sociedade colonial
  • Elite criolla: dominante na economia, alijada do poder
  • Caráter de guerra civil
  • Marxismo: houve revolução estrutural ou apenas reforma?

François-Xavier Guerra

  • Independências como modernidade política
  • Revolução como processo e acontecimento (Furet)
  • Novas sociabilidades: tertúlias, clubes, imprensa
  • Novo vocabulário: soberania, nação, cidadania

1808–1810: ponto de mutação

  • Juntas locais em Sevilha, Cádiz e nas Américas
  • Debate sobre soberania na ausência do rei
  • Visão unitária (peninsular) × visão pactista (americana)
  • Deslocamento do eixo de legitimidade

Um “laboratório político”

  • Multiplicidade de ensaios constitucionais
  • Fronteiras políticas ainda indefinidas
  • Novas noções: representação, opinião pública, povo soberano
  • Período rico em alternativas políticas e novos sujeitos

Para discussão

Foram as independências hispano-americanas revoluções?

Qual das três leituras historiográficas melhor explica o processo — ou elas se complementam?

Parte III — As campanhas de independência

Panorama: 1808–1824

  • “Em pouco mais de uma década, o imenso Império Espanhol na América desmoronou”
  • Juntas americanas iniciais: fidelidade ambígua a Fernando VII
  • Entre 1810 e 1814: vitórias insurgentes e reação realista
  • Retorno de Fernando VII (1814) e reconquista parcial
  • Consolidação das independências entre 1819 e 1825

(Prado & Pellegrino, 2014)

Ideias ou estruturas?

  • Ideias: Iluminismo, independência dos EUA, liberalismo
  • Estruturas: contradições do pacto colonial, Revolução Industrial
  • Síntese (Flores Galindo): “combinações específicas entre determinações estruturais e vontades”

José de San Martín

  • Nascido em Yapeyú (1778), formado no exército espanhol
  • Retorno às Américas em 1812
  • Travessia dos Andes (1817) — 5.500 combatentes
  • Libertação do Chile e do Peru (1821)
  • Defensor da monarquia constitucional

Simón Bolívar

  • Criollo venezuelano, fazendeiros abastados
  • Independência da Venezuela (1811) e Nova Granada (1819)
  • Projeto da Grã-Colômbia
  • Carta da Jamaica (1815) e Angostura (1819)
  • Presidência vitalícia e Senado hereditário

Bolívar desiludido

“A liberdade, desde então, só tem encontrado adversários absolutos às esperanças republicanas.”

Santa Marta, 1830 — morte às vésperas da fragmentação da Grã-Colômbia.

(Prado & Pellegrino, 2014)

Morelos e o medo das elites

  • José María Morelos continua o movimento
  • Projeto popular × projeto das elites crioulas
  • Medo da dimensão racial e social da luta
  • Independência em 1821 sob Iturbide (elite)

Para discussão

O que diferencia Bolívar e San Martín como líderes e como projetos políticos?

Por que o caso mexicano é singular entre as independências hispano-americanas?

Parte IV — Quem fez as independências?

Pluralidade de sujeitos

  • Elites crioulas e peninsulares
  • Indígenas, escravizados, pardos, mestiços
  • Mulheres em múltiplos papéis
  • Padres, camponeses e plebe urbana

Indígenas em armas

  • Apoio popular a Hidalgo e Morelos no México
  • Mateo Pumacahua: cacique do Cuzco (1814)
  • Participação ambígua: alianças e resistências locais
  • Memória oficial os reduz a figurantes

Padres na insurgência

  • Cerca de mil padres envolvidos no processo
  • Hidalgo e Morelos (México)
  • Camilo Henríquez (Chile)
  • Igreja dividida entre realistas e patriotas

Mulheres nas guerras

  • Juana Azurduy de Padilla: tenente-coronel no Alto Peru
  • Policarpa Salavarrieta (“La Pola”): mensageira, fuzilada em 1817
  • “As amazonas” e mulheres comuns seguindo as tropas
  • Tertúlias patrióticas de mulheres abastadas

Afrodescendentes em armas

  • Batalhão Negro de Buenos Aires: integrou o exército de San Martín
  • Pardo e Piñero (Ayacucho); batalhão negro em Carabobo
  • Promessa de alforria pelo serviço militar
  • Ambiguidade: liberdade conquistada × liberdade revogada

Cidadania e exclusão

  • Leis eleitorais restritivas (renda, propriedade)
  • Cádiz (1812) já excluía os de ascendência africana
  • Libertos sem sufrágio nas novas repúblicas
  • Hierarquias coloniais sob discurso igualitário

Para discussão

Por que a memória oficial apagou a participação de indígenas, mulheres e afrodescendentes?

O que significa falar em agência política desses sujeitos?

Parte V — O horizonte republicano

Tarefas da república

  • Montar a estrutura administrativa
  • Delimitar fronteiras
  • Reanimar economias em ruína
  • Construir legitimidade política

(Prado & Pellegrino, 2014)

Fragmentação territorial

  • Do Vice-Reino único às múltiplas repúblicas
  • Guerras civis e caudilhismo
  • Instabilidade constitucional prolongada
  • Mapa político da América Latina em 1830

Federalistas × Centralistas

  • Eixo central do conflito pós-independência
  • Argentina: Rosas, Facundo Quiroga × unitários
  • México: liberais × conservadores
  • Venezuela: Bolívar e a recusa do federalismo

Argentina em guerra civil

  • Rosas: base entre estancieiros de Buenos Aires
  • Caudilhismo provincial (Quiroga em La Rioja)
  • Batalha de Caseros (1852): Urquiza derrota Rosas
  • Mitre (1862): unificação centralizada

Echeverría: democracia sob tutela

  • Jovem Argentina (1838), exílio em Montevidéu
  • Dogma socialista (1846)
  • Democracia como soberania da razão
  • Massa vista como “ignorante” — educação antes da participação

Mora e a refutação de Rousseau

  • José María Luis Mora (México)
  • Catecismo político da Federação Mexicana (1831)
  • Câmara como “corpo passivo” da razão representativa
  • Propriedade como condição de cidadania

“Perigosa e funesta igualdade”

  • Temor liberal e conservador da participação popular
  • Exclusão de camponeses, indígenas, negros e mulheres
  • “Quadro social sólido” = hierarquia mantida
  • Cidadania recortada por renda, propriedade e raça

Para discussão

Que noção de “povo” cabia no liberalismo hispano-americano?

Por que a exclusão das classes populares se tornou a marca das novas repúblicas?

Encerramento

Independências e suas contradições

  • Ruptura política com a metrópole
  • Continuidade de hierarquias sociais e raciais
  • Novos sujeitos em cena — e à margem
  • Laboratório político × cidadania excludente

Bibliografia da aula

  • MÄDER, Maria Elisa Noronha de Sá. Revoluções de Independência na América Hispânica: uma reflexão historiográfica. Revista de História, n. 159, p. 225–241, 2008.

  • PRADO, Maria Lígia; PELLEGRINO, Gabriela. Campanhas de independência nos vice-reinos espanhóis; O horizonte republicano nos Estados nacionais em formação. In: História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2014. p. 25–56.