Aula 12: Revolução Mexicana de 1910

Eric Brasil

quinta-feira, 28 de maio de 2026

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Revolução Mexicana (1910–1917)

  • O que levou diferentes setores da sociedade mexicana a pegar em armas em 1910?
  • Quais projetos revolucionários entraram em conflito?
  • Por que a revolução foi a interrupção e não o atendimento das demandas camponesas?

O Porfiriato (1876–1910)

Porfiriato: progresso e violência

  • Crescimento e progresso econômico: ferrovias, mineração, exportação
  • Concentração fundiária e expropriação de terras camponesas e indígenas
  • Crise econômica + Greves de Cananea e Río Blanco (1906–1907)
  • Reeleições consecutivas sustentadas por fraude e violência estatal
  • Insatisfação generalizada: camponeses, operários, classe média e setores liberais

Porfirio Díaz

Porfirio Díaz, 1911. Fonte

A oposição se organiza

1908: a oposição ganha força nacional

  • Francisco Madero: grande fazendeiro do norte (Coahuila)
  • Ligado às elites latifundiárias, mas excluído dos privilégios do Porfiriato
  • Campanha anti-reeleição (1909–1910): percorre o país estabelecendo alianças com diferentes grupos sociais

Francisco Madero

Francisco I. Madero. Fonte

Giras de Madero (1909–1910)

Rotas das giras de Madero pelo México. Fonte

Plano de San Luis de Potosí

  • Centenário da Independência (1910): Porfírio Díaz prende os opositores, inclusive Madero
  • Do exílio no Texas, Madero lança o Plano de San Luis de Potosí, convocando a revolução para 20/11/1910
  • Resposta de diferentes setores sociais: pegam em armas para apoiar Madero
  • Insurgência em diferentes pontos do país + Retorno de Madero = Renúncia de Porfirio Díaz em maio de 1911

Insurgência maderista

Principais batalhas da fase maderista. Fonte

Madero no poder e a revolução camponesa

Madero no poder: a revolução interrompida?

  • Outubro de 1911: Madero é eleito presidente
  • Vitória principal: fim da ditadura do Porfiriato
  • Porém: garantiu a democracia com eleições e escolha de representantes, mas não atendeu as demandas dos camponeses
  • As forças que derrotaram Díaz se recusam a aceitar o projeto de Madero

A revolução ainda está no começo

  • Os grupos que lutaram a partir de outras experiências entendiam que a vitória representada por Madero era muito pouco
  • Ainda no final de 1911, demonstram que não aceitariam a interrupção do processo revolucionário

Plan de Ayala (novembro de 1911)

  • Liderado por Emiliano Zapata, do estado de Morelos, ao sul do México
  • Projeto sofisticado, com vários interlocutores — principal: Otilio Montaño (professor de escolas rurais)
  • Madero traiu a causa dos camponeses — a luta continua

Emiliano Zapata

Emiliano Zapata e Eufemio Zapata. Fonte

Zapata em Cuernavaca

Emiliano Zapata na cidade de Cuernavaca. Fonte

O que queriam os camponeses do Centro-Sul?

Morelos, estado natal de Zapata. Fonte

Projeto revolucionário camponês

  • Recuperar prerrogativas perdidas com a reforma liberal e a modernização econômica
  • Retomar formas de vida possíveis até o início do século XIX
  • Autonomia dos pueblos: controle comunitário sobre a terra

Exército Libertador do Sul

  • 20 mil combatentes, em sua maioria camponeses
  • Liderança de Emiliano Zapata
  • Comandantes militares não poderiam sobrepujar a vida social dos pueblos: seus conselhos, decisões, tradições e práticas
  • Plantio, colheita e guerra: ciclos entrelaçados

Golpe e contra-revolução (1913)

Huerta: golpe e ditadura

  • Pascual Orozco desafia a autoridade de Madero no Norte
  • Madero indica o general Victoriano Huerta para pacificar o Norte
  • Huerta ganha força política e organiza um golpe de Estado, com apoio de antigos porfiristas

Huerta: golpe e ditadura

  • Assassinato de Madero e seu vice — Huerta assume o poder
  • Ditadura de Huerta: restauração do modelo do Porfiriato, com os mesmos nomes nos cargos
  • Oposição revolucionária se unifica contra Huerta como antes contra Díaz

Pancho Villa e a Divisão do Norte

O Norte: ferrovias, minas e latifúndios

  • Região mais afetada pelo Porfiriato: desenvolvimento das ferrovias, fábricas têxteis e mineração
  • Expropriação de terras e aumento do poder dos latifundiários
  • Proximidade com os EUA: influência econômica e política

Pancho Villa e a Divisão do Norte

Villa e suas tropas. Fonte

Quem formava o exército de Villa?

  • Bandoleros, ex-membros das colônias militares, trabalhadores das minas, ferrovias e fábricas têxteis
  • Exército muito mais heterogêneo — a sociedade do Norte era mais heterogênea
  • Ideais agraristas: terras (re)conquistadas dos latifúndios seriam distribuídas por reforma agrária
  • Disciplina, controle e organização mais difíceis: violência, saques, estupros

Francisco Villa

Fotografia de Mutual Film Corporation, 1914. Fonte

Carranza e a causa constitucionalista

Carranza e Obregón

  • Venustiano Carranza: governador de Coahuila, lidera o Exército Constitucionalista
  • Defesa do reestabelecimento da normalidade constitucional
  • Recebe auxílio de Álvaro Obregón, de Sonora, fortalecendo o exército
  • Derrotam Huerta em 1914, que foge do país

Convenção de Águas Calientes (1914)

  • Sem acordo entre as lideranças revolucionárias
  • Carranza se retira e busca se reorganizar militarmente
  • Objetivo: subordinar os revolucionários do Norte (Villa) e do Sul (Zapata)

Forças agrárias unidas pela Revolução (1914)

Zapata e Villa na Cidade do México

  • Exército Libertador do Sul (Zapata) e Divisão do Norte (Villa) se articulam para defender a revolução
  • 6 de dezembro de 1914: Zapata e Villa entram na Cidade do México e sentam na cadeira presidencial

Villa e Zapata na Cidade do México, dezembro de 1914. Fonte

A aliança que não se consolidou

  • Villa e Zapata retornam ao Norte e ao Sul — a Cidade do México fica sem controle do poder central
  • A aliança foi passageira e fortuita: não estabeleceram um encaminhamento comum para uma nova ordem
  • Carranza se consolida como liderança capaz de pacificar e reconstruir o país
  • Para tanto, seria preciso derrotar os opositores

Obregón e a eliminação da Divisão do Norte (1915)

  • Carranza envia Obregón, armado com as mais modernas tecnologias militares
  • Derrota decisiva das tropas de Villa

A experiência zapatista

  • Camponeses-soldados buscam implementar o projeto do Plan de Ayala
  • Autonomia administrativa plena: cada pueblo escolheria as formas de uso e distribuição das terras

1916: ataques contra o Sul

  • Exército liderado por Pablo González brutaliza os pueblos e massacra camponeses, crianças e mulheres
  • Subjugação milimétrica do território zapatista

Constituição de 1917

Constituição de 1917

  • Poder executivo forte e interventor
  • Reformas sociais importantes: leis trabalhistas e reforma agrária
  • Ejidos: unidades fundiárias controladas pelo Estado, com usufruto individual (não comunitário)
  • Subsolo: toda riqueza pertence ao Estado — cria enormes tensões com empresas de capital estrangeiro, principalmente EUA

Os assassinatos

A violência estatal continua

  • Zapata é assassinado em uma emboscada em 1919, organizada por Carranza
  • Carranza, presidente após 1917, é assassinado em 1920 em um plano de Obregón
  • Villa é assassinado em 1923 numa emboscada no Norte
  • As demandas dos camponeses permanecem insatisfeitas

Como entender essa Revolução?

Filha da Revolução

“Lembro de quando tinha quatro anos […] testemunhei com meus próprios olhos a batalha dos camponeses de Zapata contra os carrancistas. Minha situação era muito clara. Minha mãe abria as janelas […] ela dava acesso aos zapatistas, de modo que os feridos e famintos entrassem pelas janelas na minha casa […] Ela cuidava dos ferimentos e os alimentava com grossas tortillas, a única comida que se conseguia arranjar em Coyoacán naqueles dias.”

— Frida Kahlo (apud Herrera, 2018, pp. 25–26)

Questões para debate

  1. Como a diversidade de projetos revolucionários (camponeses, liberais, constitucionalistas) explica a complexidade e os limites da Revolução Mexicana?
  2. Por que a aliança entre Zapata e Villa não se consolidou em um projeto político nacional?
  3. Em que sentido a Constituição de 1917 atendeu e, ao mesmo tempo, limitou as demandas dos movimentos sociais?
  4. Qual a importância da reforma agrária e do controle do subsolo para a soberania mexicana?

Síntese

  • O Porfiriato gerou progresso econômico concentrado e violência estrutural
  • A Revolução foi um movimento múltiplo: liberais (Madero), camponeses do Sul (Zapata), camponeses e operários do Norte (Villa), constitucionalistas (Carranza)
  • A aliança entre Villa e Zapata foi tática, não programática
  • A Constituição de 1917 incorporou demandas populares, mas sob controle estatal
  • Os assassinatos de Zapata, Villa e Carranza revelam que a revolução foi interrompida, não concluída

Bibliografia da aula

  • BRUIT, Hector. Revoluções na América Latina. São Paulo: Atual, 1988. “Introdução” e “1. A Revolução Mexicana”.
  • AGUILAR CAMÍN, Héctor & MEYER, Lorenzo. À Sombra da Revolução Mexicana: História mexicana contemporânea, 1910–1989. São Paulo: EdUSP, 2000.
  • WOMACK, John. Zapata y la Revolución. México: Siglo XXI, 1969.