Aula 4: Expansão europeia nos séculos XV e XVI

Eric Brasil

quinta-feira, 26 de março de 2026

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Aula 4

Conclusão: Sociedades Mexicas

Expansão europeia nos séculos XV e XVI

A Europa no século XV

O que os europeus conheciam do mundo?

Genoese World Map. [New York: Hispanic Society of America, 1912] Map. https://www.loc.gov/item/97690053/.

Planisfério de Waldseemüller (1507)

Primeiro mapa a nomear o continente como “América”.

Contexto europeu: formação dos Estados modernos

  • Séculos XIV–XV: crise do feudalismo — pestes, guerras, fome
  • Fortalecimento do poder monárquico sobre a nobreza feudal
  • Formação de monarquias centralizadas: Portugal, Castela/Aragão, França, Inglaterra
  • Novos instrumentos de poder: burocracia, exércitos permanentes, fiscalidade

Absolutismo e Estado moderno

  • Concentração do poder político nas mãos do monarca
  • Alianças entre coroa e burguesia mercantil contra a nobreza feudal
  • Surgimento de cortes, conselhos reais e aparatos administrativos centralizados
  • Portugal e Espanha: primeiros exemplos de monarquias com projeto colonial coordenado pelo Estado

Mercantilismo

Doutrina econômica que orienta as monarquias europeias nos séculos XV–XVII:

  • A riqueza das nações mede-se pelo acúmulo de metais preciosos (ouro e prata)
  • Balança comercial favorável: exportar mais do que importar
  • Intervenção estatal no comércio e na produção
  • Colônias: fornecedoras de matérias-primas e mercado consumidor para a metrópole

Mercantilismo e expansão marítima

O comércio com o Oriente era controlado pelos mercadores italianos (Veneza, Gênova) e pelas rotas terrestres dominadas pelo Império Otomano.

A busca por novas rotas comerciais torna-se imperativo estratégico para as monarquias ibéricas.

Reformas Religiosas (séc. XVI)

A unidade cristã da Europa Ocidental entra em crise:

  • 1517: Martinho Lutero — as 95 Teses. Contestação das indulgências e da autoridade papal.
  • Calvinismo (João Calvino, Genebra): ênfase na predestinação e na ética do trabalho.
  • Anglicanismo (Inglaterra, 1534): ruptura de Henrique VIII com Roma.

Reformas Religiosas: impactos políticos

  • Guerras religiosas na Europa: Guerra dos Trinta Anos (1618–1648)
  • Contrarreforma (Concílio de Trento, 1545–1563): resposta católica, papel central dos jesuítas
  • Portugal e Espanha permanecem católicos — missão evangelizadora como justificativa da colonização
  • Inquisição como instrumento de controle religioso e político

A expansão marítima ibérica

A partir de:

BOXER, Charles R. O império marítimo português, 1415–1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. [Cap. 1]

Charles R. Boxer (1904–2000)

Historiador britânico, maior autoridade do século XX sobre o império português.

Obras fundamentais: The Dutch Seaborne Empire (1965), The Portuguese Seaborne Empire (1969), O império marítimo português (ed. brasileira: 2002).

Portugal: pioneiro da expansão (séc. XV)

  • 1415: Conquista de Ceuta — ponto de inflexão
  • Exploração sistemática da costa africana sob patrocínio da coroa
  • Infante D. Henrique (“o Navegador”): articulação entre coroa, nobreza e interesses mercantis
  • Ilhas atlânticas: Madeira (1419), Açores (1427), Cabo Verde (1456)

A costa africana e o caminho para o Oriente

  • 1441: primeiro carregamento de escravizados africanos para Portugal
  • 1488: Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas (Boa Esperança)
  • 1498: Vasco da Gama chega à Índia — nova rota para as especiarias
  • 1500: Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil

A expansão espanhola

  • Unificação de Castela e Aragão (1469): Isabel e Fernando — “Reis Católicos”
  • 1492: financiamento da expedição de Cristóvão Colombo
  • Tratado de Tordesilhas (1494): divisão do mundo entre Portugal e Espanha
  • Expedições de conquista no Caribe, Mesoamérica e América do Sul (séc. XVI)

Um mapa de Colombo?

Facsimile of the Columbus Mappa Mundi (1492)

Motivações da expansão

Boxer destaca a confluência de três ordens de motivações:

  • Econômicas: especiarias, metais preciosos, rotas comerciais alternativas
  • Políticas: prestígio das coroas, expansão do poder estatal
  • Religiosas: evangelização, cruzada contra o Islã, “missão civilizadora”

O papel da tecnologia náutica

  • Caravela: embarcação ágil, capaz de navegar contra o vento (vela latina)
  • Aperfeiçoamento da bússola e do astrolábio
  • Cartografia: portulanos e mapas cada vez mais precisos
  • Artilharia naval: vantagem militar decisiva nos oceanos e nas costas africanas e asiáticas

Expansão marítima e escravidão africana

  • O comércio de escravizados africanos começa antes da chegada às Américas
  • A costa africana torna-se espaço de trocas desiguais e violência colonial
  • A chegada às Américas intensifica exponencialmente a demanda por trabalho escravizado
  • Tráfico atlântico: consequência estrutural da expansão ibérica

A expansão espanhola: um processo ibérico compartilhado

“Os portugueses e os espanhóis tiveram precursores (mais ou menos isolados) na conquista dos oceanos Atlântico e Pacífico”

BOXER, 2002, p. 31.

Por que a Espanha chegou depois?

  • Portugal expulsou os muçulmanos de seu território ~dois séculos antes da conquista de Granada (1492)
  • Castela e Aragão viveram um “tempo de perturbações” no séc. XV que “contribuíram muito para impedir que os espanhóis competissem tão eficazmente com Portugal” (BOXER, 2002, p. 34)
  • Unificação de Castela e Aragão (1469): Isabel e Fernando — base política para a expansão

A caravela como elo

“Foi navegando nas caravelas portuguesas que Colombo adquiriu ao menos parte da sua perícia na navegação de alto-mar.”

BOXER, 2002, p. 43.

O instrumento técnico da expansão portuguesa tornou-se o veículo da invasão espanhola das Américas.

A Inter caetera (1493) e o Tratado de Tordesilhas (1494)

  • Após 1492, a Espanha aciona a mesma lógica jurídica papal utilizada por Portugal desde 1452
  • A Inter caetera concede às coroas espanholas o monopólio sobre os territórios “descobertos” a oeste
  • Tordesilhas: divisão negociada do mundo entre as duas coroas ibéricas — competição e cooperação simultâneas

A carta de dom Manuel (1499)

Ao retornar da Índia, Vasco da Gama envia notícias de sucesso. Dom Manuel escreve carta jubilosa a Fernando e Isabel:

“[…] enormes quantidades de cravo, canela e outras especiarias […] rubis e toda espécie de pedras preciosas e terras onde há minas de ouro.”

BOXER, 2002, pp. 52-53.

A carta de dom Manuel (1499)

Dom Manuel intitula-se “Senhor da Guiné e da conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia” — anunciando o triunfo precisamente aos soberanos espanhóis, seis anos após Colombo.

Síntese

  • Estados absolutistas + mercantilismo = expansão como política de Estado
  • Reformas religiosas: reforçam a missão “civilizadora” católica das coroas ibéricas
  • Portugal precede a Espanha na exploração atlântica
  • A expansão conecta três mundos: Europa, África e Américas

Bibliografia da aula

  • BOXER, Charles R. O império marítimo português, 1415–1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. [Cap. 1]

  • NARDI, Tawnne T. de A. “Mesoamérica, Mexicas e Tlapanecas.” In: O império mexica e a província de Tlapa. Relações políticas e tributárias nos códices mesoamericanos (1461–1521). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019. pp. 25-54.