Quilombos, Palenques, Cimarrones, Maroons
Variedade e diversidade (1/2)
- Múltiplos termos nas Américas: quilombos (Brasil), palenques (América espanhola), cumbes, mainels, maroons (EUA/Caribe inglês) (p. 269)
- Enorme variação: de menos de 10 fugitivos (durando semanas) a 11 mil em Palmares (quase um século) (p. 259)
Variedade e diversidade (2/2)
- Só em Nueva Granada: mais de meia centena de palenques entre os séculos XVI e XVIII (p. 270)
- Em Minas Gerais: pelo menos 166 quilombos entre 1711 e 1795 (p. 270)
A horda quilombola (1/2)
- A maioria dos quilombos eram hordas: ajuntamentos baseados na adesão, não em saldos entre natalidade e mortalidade (p. 272)
- Economia fundada em coleta, caça e roubos — não na agricultura — resultando em nomadismo (p. 272)
- Grupos geralmente inferiores a dez pessoas, unidos em torno de objetivos imediatos (alimentos e proteção) (p. 272)
A horda quilombola (2/2)
- Posição defensiva: refúgio em zonas de geografia difícil, risco constante de desaparição (p. 272-273)
- Boa parte dos recém-evadidos optava por integrar-se a assentamentos preexistentes (p. 272)
Características geográficas e defensivas (1/2)
- Refúgio em bosques e regiões pantanosas — proteção e recursos naturais (p. 270)
- Defesas: armadilhas, fossos, estrepes, trincheiras, paliçadas (p. 285-287)
Características geográficas e defensivas (2/2)
- Sistemas de origem africana (armadilhas cobertas e estacas pontiagudas) encontrados em Palmares, Buraco do Tatu e outros (p. 286)
- Quilombo do Ambrózio: fosso de 1,5-2m de largura por 2-3m de profundidade circundando 90m × 70m (p. 287)
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Quilombo de São Gonçalo, 1769, MG. Fonte: Amantino, 2003, p. 107
Economia e proto-campesinato (1/2)
- A transição para comunidade camponesa exigia agricultura, pecuária e trocas (p. 272-273)
- Grandes quilombos combinavam campos, horticultura, capacidade de armazenamento e produção para exportação (p. 282-283)
- Exemplos: cana e cachaça (Moquim, RJ); algodão, milho, feijão, mandioca (Minas Gerais); cacau, tabaco (Esmeraldas) (p. 282-283)
Economia e proto-campesinato (2/2)
- Excedentes comercializados em mercados e armazéns locais (p. 283-284)
- Divisão social do trabalho: ferreiros, artífices, tecelões (p. 283)
Organização interna e hierarquias (1/2)
- Hierarquização baseada no princípio da anterioridade: os mais antigos administravam o mercado matrimonial e a distribuição de terras (p. 280-281)
- Reis, rainhas, capitães, tenentes, alferes e sargentos nomeavam-se entre os quilombolas (p. 288-290)
- Instituições políticas: “Casas de Audiência”, “Casa do Conselho”, “Casa do Rei” (p. 288)
Organização interna e hierarquias (2/2)
- Lideranças combinavam funções religiosas e políticas: Nanny (Jamaica), Macandal (Saint Domingue), Ventura Sanchez (Cuba) (p. 289-290)
- Havia escravidão interna: em Palmares, cativos raptados mantinham seu status (p. 291)
Gênero e comunidade cimarrona (1/2)
- Crônico deficit de mulheres negras nos quilombos — homens raptavam mulheres indígenas para constituir famílias (p. 276-277)
- No Mato Grosso (1770-1795): capturados 6 negros idosos, 8 índios, 19 índias e 21 caburés — preferência pela permanência de mulheres indígenas (p. 276)
- Em comunidades camponesas consolidadas, famílias nucleares eram o eixo da organização (p. 280-281)
Gênero e comunidade cimarrona (2/2)
- No santuário de Mose (Flórida, 1759): ¼ da população tinha menos de 15 anos, todos nascidos no local; 13 de 22 casas habitadas por famílias nucleares (p. 280)
- Nanny: liderança feminina na Jamaica, combinava funções religiosas e políticas (p. 289)
Quilombos no Brasil: o caso de Minas Gerais (1/2)
- Pelo menos 166 quilombos entre 1711-1795 (p. 270)
- População média dos grandes quilombos: ~600 habitantes (p. 280)
- Agricultura diversificada: milho, feijão, algodão, cana, mandioca; criação de gado (p. 282-283)
Quilombos no Brasil: o caso de Minas Gerais (2/2)
- Defesas sofisticadas: fossos, trincheiras, fortificações (p. 285-287)
- Quilombo do Bacaxá (RJ): mais de 60 pessoas, todos nascidos no quilombo, “em parte de suas roças e, em parte, de furtos” (p. 278)
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Tabela 4: Estimativas populacionais de alguns quilombos de Minas Gerais, 1766-1770. Fonte: Amantino, 2003, p. 259-260
Comparações hemisféricas (1/2)
- Brasil e Caribe: fugas e quilombos mais frequentes que na América espanhola continental e sul dos EUA (p. 266)
- Sul dos EUA: quilombos congregavam menores contingentes e obtinham menores êxitos (p. 266)
- Suriname e Jamaica: casos raros onde quilombolas estabeleceram tratados e descendentes sobrevivem até hoje (p. 271)
Comparações hemisféricas (2/2)
- Palmares (Brasil, séc. XVII): 11 mil habitantes, federação de dez assentamentos — o maior quilombo das Américas (p. 259, 279)
- O século XVIII foi a “época áurea das fugas” no continente (2/3 de todas as viagens negreiras) (p. 266)
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Figura 6: Quilombo de Boucou (Price, 1992, p. XXIII)
Quilombos: considerações finais
- Os quilombos não estavam radicalmente isolados da sociedade escravista (p. 293)
- As comunidades locais relacionavam-se com eles de modo desigual — nem todo quilombo era uma “contrassociedade” (p. 279)
- Havia quilombos que acolhiam brancos e mulatos livres pobres, além de indígenas (p. 279)
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Tabela 3: Perfis demográficos dos escravos fugidos constantes em avisos de jornais do Caribe e sul dos EUA (1730-1805). Fonte: Mullin, 1994, p. 289
Revoltas, Rebeliões e Revolução
Tipologia da Resistência Escrava (1/2)
- Conspirações: complôs abortados, difíceis de autenticar — dependem de testemunhos obtidos sob coação (Geggus 2011, p. 24)
- Revoltas abertas: escravos como participantes mais importantes; deixam evidências materiais (mortes, destruição)
Tipologia da Resistência Escrava (2/2)
- Guerras maroons: insurgentes “nasceram livres” — não se confundem com rebelião escrava (Geggus 2011, p. 24)
- Conflitos multiclassistas: envolvem escravos mas são dominados por pardos livres ou Caribes negros (Granada, São Vicente, 1795)
O “Enigma da Jamaica” nos 1790s
- Jamaica possuía “um impressionante histórico de resistência violenta do século XVII até a década de 1830” (Geggus 1987, p. 274)
- Paradoxo: durante a Era das Revoluções, quando São Domingos viveu a maior revolta escrava, as colônias britânicas atingiram seu nível mais baixo de rebeliões (p. 274)
- Jamaica permaneceu “quiescente” nos anos 1790, apesar de todas as condições objetivas favoráveis à insurreição (p. 275)
Reações Iniciais a São Domingos
- Escravos jamaicanos estavam bem informados: já em setembro de 1791 cantavam canções sobre a revolta (Geggus 1987, p. 276)
- Levante planejado para o Natal de 1791 no norte da ilha; escravo coromantee confessou que pretendia participar “porque eles eram seu povo” (p. 277)
- Nada aconteceu — a milícia com mais de 8.000 homens, somada à guarnição regular e aos maroons, fez “potenciais rebeldes pensarem duas vezes” (p. 277)
Segunda Guerra Maroon (1795) — Causas (1/2)
- Conflito com Trelawny Town (600 habitantes) — julho de 1795 a março de 1796 (Geggus 1987, p. 279)
- Causas locais, não francesas: escassez de terras, insatisfação com o superintendente, aplicação frouxa das leis (p. 280)
Segunda Guerra Maroon (1795) — Causas (2/2)
- Estopim: dois maroons açoitados publicamente na workhouse por um escravo fugido que eles próprios haviam capturado — “ser punido como escravos foi percebido… como profundamente insultante” (p. 280)
- Geggus refuta influência francesa: “o caso para um envolvimento estrangeiro mínimo simplesmente desaparece” (p. 282)
Tese do Fator Militar (1/2)
- “A estabilidade de uma sociedade escravista era determinada menos pelas ideias circulando nas senzalas do que pela força e unidade da classe senhorial” (Geggus 1987, p. 278)
- Guarnição jamaicana reforçada durante a Guerra de Independência Americana e expandida nas guerras revolucionárias francesas
Tese do Fator Militar (2/2)
- Quando a revolta de São Domingos eclodiu, “já havia mais soldados na Jamaica do que jamais em tempos de paz” (p. 293)
- Correlação consistente entre redução de tropas e eclosão de rebeliões: Barbados (1816), Demerara (1823), Jamaica (1831) (p. 294-299)
Rebeliões na Era das Revoluções — Censo Hemisférico (1/2)
- Levantamento de aproximadamente 180 incidentes entre 1776-1848 — “uma amostragem limitada de fontes limitadas” (Geggus 2011, p. 25)
- Sub-representa Brasil e Cuba; a década de 1790 se destaca como pico de intensidade
Rebeliões na Era das Revoluções — Censo Hemisférico (2/2)
- O ano de 1795 é “único pelo número de incidentes separados em diferentes sociedades” (p. 23)
- Caribe concentra as maiores revoltas: 8 ou 9 rebeliões envolveram pelo menos 1.000 escravos; nenhuma rebelião continental ultrapassou esse número (p. 25)
Impacto das Três Revoluções Atlânticas (1/2)
- Revolução Americana: menor impacto direto; milhares de escravos escaparam; possível influência na “cultura de expectativa” (Geggus 2011, p. 28-29)
- Revolução Francesa: enfraquecimento material dos regimes escravistas — guerra civil entre brancos e pardos, divisões na classe dominante (p. 30)
Impacto das Três Revoluções Atlânticas (2/2)
- Revolução Haitiana: raramente envolveu assistência direta — política de Toussaint foi de “uma revolução em um só país” (p. 31)
- Circulação de notícias e inspiração simbólica: escravos em Havana, Barbados, Porto Rico e Curaçao mencionavam São Domingos (p. 33-34)
Crítica a Genovese: direitos vs. rumores (1/2)
- Genovese: Revolução Francesa teria gerado “novo tipo” de insurreição, buscando “liberdade para todos e engajamento com o mundo mais amplo” (Geggus 2011, p. 27)
- Geggus: “a principal fraqueza dessa tese é que Genovese não conseguiu fornecer exemplos plausíveis” além da Revolução Haitiana e da rebelião de Coro (p. 27)
Crítica a Genovese: direitos vs. rumores (2/2)
- Insurgentes no Caribe francês raramente empregavam linguagem de direitos; alegavam que já haviam sido libertados pelo rei ou pela Assembleia Nacional (p. 30)
- “A evidência de que escravos usaram o termo ‘direitos do homem’ é na verdade bastante limitada” (p. 30)
Abolicionismo e Rumores de Emancipação
- Movimento abolicionista gerou ciclo de revoltas baseadas em rumores de emancipação oficial — mais de 20 incidentes entre 1789 e início dos anos 1830 (Geggus 2011, p. 35)
- “Tais rumores talvez ressoassem mais fortemente entre os escravizados do que o conceito de direitos abstratos” (p. 35)
- Insurgentes em Barbados (1816), Demerara (1823) e Jamaica (1831) exigiam aplicação de uma lei de abolição que (erroneamente) acreditavam ter sido aprovada
Demografia, Tráfico e Rebelião (1/2)
- População escrava nas Américas: de 3 milhões em 1790 para o dobro em meio século — parte da explicação, mas insuficiente (Geggus 2011, p. 26)
- Correlação forte entre tráfico e rebelião em algumas regiões (Bahia, Brasil Central, Cuba), mas fraca nas colônias britânicas
Demografia, Tráfico e Rebelião (2/2)
- As três “tardias” rebeliões britânicas — Barbados (1816), Demerara (1823), Jamaica (1831) — “solapam seriamente qualquer tentativa de correlacionar rebelião escrava com presença africana” (p. 26)
- Revolta de São Domingos eclodiu “na parte mais crioulizada da colônia e foi liderada largamente por escravos nascidos localmente” (p. 26)
Síntese: Conspirações, Condições Locais e Agência Escrava
- Geggus (2011): insurreições eram “mais racionalmente calculadas, menos desesperadas do que muitas vezes pareceram” (p. 299)
- Em todos os textos: agência escrava como escolha racional condicionada por estruturas de poder — demografia, economia, presença militar e circulação de notícias